Escola pública: por que não desisto?

Por Frederico Horie da Silva

Todas as sextas-feiras, neste espaço, educadores ligados ao Instituto de Desenvolvimento da Educação (IDE) discutem questões relacionadas ao sistema público de ensino. Não é por menos, afinal, boa parte de nossas escolas se encontram sucateadas, a maioria das políticas públicas está distante das salas de aula e a Educação como prioridade continua como discurso de campanha eleitoral e não como práxis social. Apesar das críticas, não somos pessimistas, pelo contrário, acreditamos que a escola pública pode e deve ser de qualidade, mas há aqui um detalhe importante: Somos esperançosos sem jamais esperar.

Em meu caso, minha fonte de esperança tem nome, endereço e, principalmente, projeto político pedagógico. Sim. Deposito minha esperança em uma escola: real, pública, que atende pouco mais de cem alunos em um prédio cedido por uma instituição privada, que entre outros males, sofre com a alta rotatividade de professores. Eu sei, parece piada de mau gosto, mas lhes mostrarei que se trata de uma bela poesia.

Em um país que lê, em média, apenas 4,7 livros por ano (incluindo-se didáticos e paradidáticos), temos, nessa escola, um projeto de leitura literária consolidado, sistemático a ponto de influenciar políticas públicas, se tornando referência no bairro, na cidade e no Estado, mas, principalmente, referência para os alunos da escola e suas famílias, que enchem a sala de leitura e que leem e levam para casa – por dia -, mais livros do que a média brasileira o faz no ano. Eu vi, é comovente.

Nessa mesma pesquisa, realizada pelo Instituto Pró-livro, temos um dado ainda mais assustador: O número de livros lidos fora da escola é de apenas 1,3 habitante/ano.

Nesse contexto desanimador, a escola que vos falei; pequena, pública, com apenas um professor do quadro efetivo de educadores, foi uma das cinco vencedoras do Concurso Escola de Leitores, promovido pelo Instituto C&A em parceria com a Secretaria de Estado da Educação e da Cultura do Rio Grande do Norte e o Instituto de Desenvolvimento da Educação (IDE) e participará de um intercâmbio de experiências de  promoção de leitura na Colômbia, em agosto, graças a um projeto que coloca a escola como parte e não a parte da comunidade, o Bairro Leitor, que forma mediadores de leitura – desde crianças dessa e de outras escolas, até adultos e idosos moradores do bairro -, que multiplicarão a leitura literária para além do espaço escolar, pois, se “o texto é uma máquina preguiçosa, esperando que o leitor faça a sua parte”, como disse Umberto Eco, a escola tem papel central na formação desses leitores, cidadãos capazes de se encantar pela leitura e enriquecer o capital humano e cultural, seu e do entorno em que vive.

Esse caso nos mostra que uma escola não está fadada ao fracasso por possuir poucos ou muitos alunos, ser pública ou particular, ocupar um espaço periférico ou central na cidade.  Mas ela estará MORTA se a cultura da mediocridade, que perpassa todas as esferas do nosso sistema público de ensino, for dominante; se continuarmos a acreditar que a escola pública é a escola do pobre, que é normal não ter professores, que é normal liberar mais cedo, que todos os alunos aprendem da mesma maneira e no mesmo tempo, que uma escola se faz sem investimentos, que é tudo culpa da escola, que nada é culpa da escola…

Aos leitores fica a mensagem: Continuemos esperançosos, mas sem jamais perder a capacidade de nos indignarmos.

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