Alfabetizemos as crianças!

Por Cláudia Santa Rosa

Ontem foi celebrado o Dia Internacional da Alfabetização. O Brasil comemora o decréscimo do índice de analfabetismo, conforme dados do IBGE, mas ainda amarga números expressivos e distorções regionais: sãos 14 milhões de analfabetos com 15 anos ou mais, o equivalente a 9,6% da população. Somente a região Nordeste concentra 53,3% dos analfabetos do país, percentual maior, acreditem, do que os 51,4% apurados no Censo do ano 2000. O Estado do Rio Grande do Norte tem o quarto pior desempenho entre os estados brasileiros: o analfabetismo atinge 17,3% da população.  

As promessas de “zerar o analfabetismo” eclodem a cada campanha eleitoral, mas a realidade pouco ou quase nada se altera. Sem políticas públicas que cuidem da escola, da Educação e da alfabetização das crianças, a gestão pública, ano após ano, nutre uma espécie de “fábrica de analfabetos”, entregues à própria sorte e dependentes dos programas de alfabetização de jovens e adultos.

A cada dia o chão da escola me deixa mais convencida de que dois sérios problemas comprometem o processo de alfabetização das crianças das escolas públicas: primeiro, as lacunas na universalização da educação infantil para as classes menos favorecidas, em quantidade de escolas e qualidade dos projetos pedagógicos, de modo que sejam capazes de, efetivamente, promoverem o processo de alfabetização das crianças. Como segundo problema, destaco a falta de formação específica dos professores designados para atuarem como alfabetizadores, em turmas da educação infantil e de 1º, 2º e 3º ano do ensino fundamental. A gestão pública age como se todo professor dominasse as competências necessárias para alfabetizar e letrar crianças, quando sabemos que alfabetizar não é a mesma coisa de dar aulas, de transmitir conteúdos ou mediar aprendizagens como se todas as crianças já soubessem ler e escrever de forma convencional. A falta de políticas que solucionem esses dois problemas produz o analfabetismo, uma chaga na educação brasileira.

Diante desse cenário, torna-se menos importante o debate que eclodiu, no Brasil, entre especialistas, sobre a pertinência das propostas de alfabetização orientadas pela teoria construtivista ou conforme o método fônico. Há quem atribua o analfabetismo da população e o fracasso escolar ao fato das escolas utilizarem a teoria construtivista como referencial para os seus projetos pedagógicos. Tal asseveração parece-nos equivocada, considerando que o referencial construtivista e a psicogênese da língua escrita – estudo liderado por Emília Ferreiro, pesquisadora Argentina – continuam distantes da massificação nas escolas brasileira. Para atestar basta que se conheça de perto o que acontece no chão das escolas estatais. Por mais esforçados que sejam os professores, desconheço se houve um tempo em que a maioria conseguiu implementar práticas de alfabetização, guardando tamanha fidedignidade à Teoria Construtivista.

Na verdade, os métodos centrados na silabação e até mesmo o Fônico, em termos práticos, sempre foram majoritários nos fazeres dos professores brasileiros, inclusive de uma parte daqueles que algum dia se considerou construtivista. É verdade, também, que sempre houve uma corrente de estudiosos a defender propostas de alfabetização de crianças que incorporem a função e o sentido social da língua, pressupostos que se aproximam bem mais do referencial construtivista.

Tudo o que se intenciona massificar, desconsiderando a autonomia, o protagonismo e a autoria de pensamento dos que estão nas escolas, é um equívoco. Raros serão os casos em que um único método de ensino atenderá as necessidades de todas as crianças de uma mesma sala de aula, quiçá de um país. Logo, não se respeita a diversidade de uma sala de aula, impondo manuais e desprezando o que há de positivo nos diferentes métodos e perspectivas teóricas. Insistir na idéia de que todas as crianças aprendem do mesmo jeito certamente produz o fracasso que aí está.

Os alunos da escola pública brasileira carecem de ser imersos na cultura escrita, considerando não ser esta a prática da maioria das famílias. Compreender a função social da escrita é um passo fundamental para fazerem a relação entre letras e sons, portanto, alfabetizar-se. O processo de alfabetização se dá a partir da atividade de pensar sobre o que se deseja comunicar e sobre como fazê-lo, através da escrita. Essas atividades devem ser sempre planejadas e mediadas pelo professor, a partir de uma intencionalidade pedagógica. Se quisermos avançar nos indicadores educacionais, alfabetizemos as crianças!

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