Dia do professor: O que se tem para comemorar?

Por Frederico Horie Silva

Conheço um profissional que possui dois empregos: durante o período matutino é professor do ensino fundamental na rede estadual de ensino, e à noite é guarda municipal em Natal. Quando o questionei sobre qual dos empregos ele preferia, me arrependi assim que ouvi a resposta, e perguntei o que havia acontecido para ele estar desiludido com a Educação. Ele negou veemente, e disse que a Educação ainda era a sua paixão, que sua desilusão era com a escola pública. O que está implícito no discurso do professor é que, nas atuais condições, existe a escola pública, mas que não há Educação dentro dela – ao menos não de qualidade.

Minha reflexão é direcionada ao estado do Rio Grande do Norte, visto a situação calamitosa em que se encontra o sistema estadual de ensino. Discutirei alguns pontos presentes na Carta da Educação elaborada pelo Instituto de Desenvolvimento da Educação (IDE) e que, lembremos, foi entregue a todos os candidatos ao governo.

Primeiramente, é preciso que o governo cumpra aquilo que anunciou desde o início do ano letivo: concurso público para quatro mil professores. Estamos no meio de outubro e sabemos, não é fácil organizar um concurso desta dimensão em tão pouco tempo, e mais: como atualizar esses quatro mil professores que vão entrar? Como eles(as) irão conhecer a realidade de suas escolas? No primeiro dia de aula?

Paralelamente ao concurso, é preciso fazer um levantamento sobre a situação dos profissionais da Educação. É necessário saber quem está em sala de aula e quem não está, para, em um segundo momento, abrir aos professores que estão em outras atividades a possibilidade de concorrer internamente pelas vagas que hoje estão ocupando em bibliotecas, salas de leitura, coordenação pedagógica e órgãos da secretaria de Educação. Além disso, é importante propiciar uma estrutura sólida de formação, para que os servidores possam atuar de maneira satisfatória nessas diferentes funções educativas. Dessa maneira, antes da convocação do concurso, o governo já saberia as reais demandas para então elaborar um plano para solucionar a gravíssima questão da falta de professores nas escolas do estado. Estas seriam as medidas urgentes para atenuar os prejuízos que a escola pública estadual vem causando às centenas de milhares de famílias do Rio Grande do Norte.

Entretanto, a Educação não pode ser tratada apenas com medidas pontuais. Pelo contrário, é necessário promover políticas públicas que sobrevivam a governos, e daí a insistência do IDE na retomada da discussão acerca do Plano Estadual de Educação e na reestruturação do Plano de Cargos Carreira e Vencimentos. É preciso convocar segmentos da sociedade como pais, professores, gestores, ONGs e sindicatos para elaborar uma agenda para a construção do Plano Estadual de Educação, a partir da minuta existente que, passados 10 anos, jamais foi finalizado. O cenário atual requer um plano ousado com metas claras e palpáveis para o desenvolvimento da educação básica do Rio Grande do Norte.

Atente-se: o plano só faz sentido se respaldado por políticas públicas de valorização dos profissionais da Educação, o que exige investimento e revisão orçamentária, no que concerne à definição de prioridades. Obviamente, devem ser criados mecanismos eficientes de avaliação de desempenho profissional, com cruzamento de dados do desempenho dos alunos em exames e da elaboração periódica de relatórios dos professores. Deve ser acompanhado, também, pela participação em eventos na área e por sua produção intelectual. 

O professor, para ser cobrado e avaliado, necessita de mais tempo na escola e menos tempo em sala de aula. Leitor: não confunda tempo para planejamento com diminuição de carga horária. O trabalho do professor é intelectual, exige prática, reflexão e divulgação das experiências exitosas. O educador não pode chegar na sala de aula sem nenhum planejamento, perguntando aos alunos onde parou na matéria e utilizando a cópia no quadro como mecanismo silenciador de alunos.

Se hoje é dia do professor, me permito um pedido: não quero “folga” do trabalho. Quero condições de trabalho. Quero estar em sala de aula realizado profissionalmente e homenageando meus alunos com a melhor situação de aprendizagem que eu puder criar, preparada com tempo, rigorosidade e afeto.

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