Paleontologia

Por José Pacheco

Diz a Maria: “Os tempos são outros, a idéia de que a escola deve ser apenas brincadeira já provocou ignorantes a mais”. Pois é, Maria… Os tempos são outros, mas as práticas são as mesmas e de recuados tempos. Eu sei, porque também fui professor “transmissor”. Foi isso que me ensinaram desde a carteira da escola primária até à universidade (é isso que, ainda hoje, se ensina). Durante algum tempo da minha vida de professor, dei aula, acreditei (santa ingenuidade!) ser possível transmitir conhecimentos. Até que descobri algo que qualquer professor sem síndrome de pensamento único pode descobrir: que há outros modos de ser professor e que o professor não transmite o que diz, mas aquilo que é.

O que a maioria dos professores tentou (e tenta) fazer não é transmitir conhecimento, é transmitir mera informação. Mas nem essa consegue transmitir, devido a múltiplos “ruídos” que interferem na comunicação (poderei demonstrar a afirmação, se necessário). E essa prática hegemônica – em dois séculos, raras são as exceções – da “transmissão” já provocou ignorantes a mais, como bem refere a Maria.

Eu prefiro um professor “tradicional”, que tente transmitir conhecimentos, a um professor que considere que “a escola deve ser apenas brincadeira”. Mas ambos estão errados. O primeiro, porque insiste num modelo fóssil; o segundo porque pratica uma pedagogia fóssil. Explicarei…

Muitos daqueles que defendem um “ensino transmissivo” também abominam aquilo que designam por “novas pedagogias”. Presumo que usem tal adjetivo por ignorância da História da Educação. As “novas pedagogias” que eles criticam são velhas. Piaget publicou teoria em meados do século XX e as matrizes construtivistas foram elaboradas há quase um século!

Quem aceitaria ser submetido a uma cirurgia comandada por um médico que se orientasse por ciência produzida há meio século? Alguém arriscaria confiar o projeto da sua casa a um engenheiro que se atualizasse na leitura de livros técnicos publicados há cem anos? Mas quem hesita em entregar os seus filhos ao cuidado de quem ainda nem sequer um Piaget, ou um Dewey assimilou, para elaborar teoria pessoal e (responsavelmente!) a utilizar nas suas práticas?

Muitos daqueles que influenciaram sucessivos elencos ministeriais e conduziram a política educativa ao desastre evocaram as ciências fósseis da educação. Por exemplo, fazendo teorização de teorias mal digeridas e jamais praticadas, alguns “iluminados” contribuíram para lançar um estigma sobre a psicologia da educação, quando, em nome dela, apoiaram e legitimaram políticas desastrosas. No exercício da profissão, eu senti os efeitos de “reformas” assentes em “construtivismos mal assimilados”…

Diz a Maria que “os tempos são outros”. Sê-lo-ão? Não consegui disfarçar a minha perplexidade, quando escutei este diálogo numa sala de professores:

Não me sinto preparada. Tenho medo…

Medo de quê? Só tens que passar o conteúdo. Vai ver que é fácil! É só escrever na lousa e eles copiam…

Há muitos anos, a Pedagogia foi proscrita, afastada das universidades. Em Portugal, os cursos de Pedagogia foram extintos. Pedagogia parece ser uma palavra maldita. O resultado está à vista: o debate sobre Educação é paupérrimo, expôs-se ao alvitre de qualquer um e à opinião de todos, transformou-se numa terra de ninguém.

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