De fósseis e falastrões

Por José Pacheco

A leitura não é tudo na vida, ler não é suficiente para operar mudanças, mas não pode haver mudança nas práticas que possam dispensar a teoria. Por mais livros que se leia, nunca serão suficientes na ajuda prestada na resolução das nossas dificuldades de ensinagem. Comprendi isso no contexto de uma prática que concretizou utopias. E, já aposentado, partilho leituras com professores que não desistem de se melhorar. Tenho consciência de que, por mais livros que leia, serei sempre ignorante, dada a imensidão do conhecimento pedagógico disponível.

Por isso me surpreendo quando alguém me diz haver professores que não lêem. Talvez por isso, muitos professores ajam como aprendizes de feiticeiro, não logrando explicar por que fazem aquilo que fazem, seja lá o que for que façam. Não conseguem fundamentar as suas práticas com recurso à teoria e, porque não se distingue a sua “opinião” da “opinião” de qualquer leigo em pedagogia, “são desvalorizados por uma opinião pública na qual todos se consideram especialistas em Educação”, como nos dizia a Hanna Arendt.

Esses docentes são os mais vulneráveis a discursos pretensamente inovadores e a argumentações fósseis. Sei de gente que faz fortuna à custa da fragilidade alheia, distribuindo receitas de auto-ajuda pedagógica, sedutoras soluções, que os próprios vendedores não aplicam. Observo falastrões afagando o ego dos professores, falando somente o agradável, contornando questões delicadas, recorrendo ao discurso da desculpabilização, tratando os professores quase como mentcaptos. E rio (um riso triste, confesso) das intervenções públicas de adeptos do pensamento único, que se crêem sábios. Misturam afirmações do senso comum com propostas fósseis, propõem aquilo que sempre se fez. As escolas, que não se dão conta da obsolescência do modelo que tais criaturas defendem, sempre tentaram transmitir conteúdo, sempre valorizaram a transmissão de conhecimentos, sempre centraram o ensino nos conteúdos curriculares e numa “avaliação” feita de inúteis provas. As práticas ditas diferentes sempre foram excepções à regra.

No domínio da formação dos professores, propõem aquilo que também já acontece: valorizar primeiro as matérias e depois a formação pedagógica. Parecem ignorar que na formação inicial que ainda temos, à míngua de uma produção teórica que fecunde as práticas e que por elas seja reelaborada, se altera somente a nomenclatura e ainda se insiste no decorar de teoria fóssil de há cem anos atrás. Finalmente, ao preconizar a prioridade da formação científica em detrimento da pedagógica, contribuem para a desqualificação profissional dos professores, porque aquilo que distingue o exercício da profissão dos professores – a par de um profundo conhecimento das matérias a leccionar – é o saber pedagógico.

O Brasil tem os melhores teóricos do mundo. Porém, quase não têm espaço em congressos e na mídia. Nesta, os opinion maker receitam práticas centenárias e hegemónicas, cujos trágicos efeitos bem conhecemos. Esses pronunciamentos apelam a uma mesmice pedagógica, que condenou sucessivas gerações ao grau zero de literacia e ao analfabetismo funcional. O Brasil convive com o drama dos catorze milhões de analfabetos funcionai, que a escola da mesmice produziu. E ssobrevive na tragédia da reprodução da ignorância, por obra de fósseis e falastrões.

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