Educação Integral

Por José Pacheco

A “educação integral” é tema recorrente desde a antiguidade clássica: já Aristóteles dela falava. Na modernidade, Claparède e Freinet preconizaram uma educação integral ao longo de toda a vida. No Brasil, os “centros integrados de educação pública”, criados na primeira gestão de Brizola, são a concretização (abortada) da idéia de escola pública de tempo integral proposta por Anísio Teixeira. E, há mais de trinta anos, Lauro de Oliveira Lima, no livro “Mutações em Educação segundo Mc Luhan” (Rio de Janeiro: Editora Vozes, 1979) escrevia: “A expressão ‘escola de comunidade’ procura significar o desenquistamento isolacionista da escola tradicional. Escola, no futuro, será um centro comunitário. Não só a escola utilizará como instrumento ‘escolar’ o equipamento coletivo, como a comunidade utilizará o local da escola como centro de atividade. A escola não se reduzirá a um lugar fixo murado, tornando-se, verdadeiramente, uma atividade pública (…) nos escritórios, fábricas, granjas, agencias, repartições…”

Se funcionarem em tempo integral, as escolas serão de educação integral, ou não serão escolas, dado que terão de contribuir para o desenvolvimento pessoal e social, no exercício de uma pedagogia do lugar. Muitas experiências de educação em tempo integral de que tenho conhecimento são tímidas, consistem em meros projetos de “contra-turno”. Reconheço mérito nessas experiências. Porém, os seus efeitos são limitados. Freqüentemente, esses projetos são condicionados pela racionalidade e modelo escolar – é fomentada uma ocupação saudável dos tempos extra-escolares, dispendidos avultados recursos, obtendo-se um retorno escasso. Na perspectiva reducionista como vem sendo interpretado em múltiplos lugares, o projeto de “escola de tempo integral” apenas visa “ocupar tempos livres” ou “assegurar atividades em contra-turno” e poderá significar o reforço da desculpabilização curricular, contribuindo para a legitimação de práticas obsoletas.

Em contrapartida, é-me dado o privilégio de acompanhar algumas práticas, que poderei designar de “educação integral em tempo integral”. Ainda que embrionárias, visam a sustentabilidade dos projetos. Partindo de desejos e necessidades sentidas pelos atores locais, acontecem a todo o momento e em múltiplos espaços sociais. Requerem descentralização, questionamento do modelo de relação hierárquica, negociação e contrato, iniciativas culturais, disponibilização de equipamentos coletivos, flexibilidade na organização, respeito pela diversidade… 

É conhecida a minha relutância relativamente a iniciativas provindas dos centros dos sistemas educativos. Mas, quando tive oportunidade de participar num evento organizado pelo MEC, confirmei o velho aforismo que nos diz que só um jegue velho não muda de opinião. Assisti a depoimentos de secretarias de educação e de universidades envolvidas no Programa Mais Educação. Recolhi dados da avaliação, ouvi falar de currículo na educação integral e de estratégias para implantar a educação integral no Brasil. Uma das intervenções tinha por título: “Educação integral / Educação integrada e(m) tempo integral”. Falou-se de educação integral e não de meras “escolas em tempo integral”. Acredito que a adjetivação não seja ornamento do discurso, porque também por lá se falou de Paulo Freire e de uma educação integral do sujeito, produtora de conhecimento – não apenas para, mas na cidadania.

Eu nunca fui puxa-saco, mas devo admitir algo, que eu não suspeitava poder acontecer, mas aconteceu: reacendeu-se em mim a esperança, por inimagináveis caminhos, encetados por uma equipe ministerial competente coordenada por uma Jaqueline que sabe onde (e como) quer chegar.  

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