Auto-engano na educação

Por Thiago Baptistella Cabral

Prezado leitor, você acredita em Deus ou um ser superior. Esta asserção tem grandes chances de estar correta, é o que revela recente pesquisa encomendada pela agência de notícias Reuters. O Brasil é o terceiro país onde mais se acredita em “Deus ou um ser supremo” – 84% dos pesquisados. A média mundial é de 51%. Como disse Hélio Schwartsman, articulista da Folha de S.Paulo: “Pessoas religiosas costumam dizer que seguem a vontade de Deus. A questão relevante então é descobrir como elas descobrem o que Deus quer, já que só uma minoria alega receber ordens diretas do Criador”. Vejamos. O que Deus pensa a respeito da pena de morte?

Uma pesquisa realizada por Nicholas Epley, da Universidade de Chicago joga luz a respeito destas questões. Entrevistaram centenas de pessoas, fazendo questões como a acima, pedindo, além da sua opinião, indagavam como eles achavam que Deus, Barry Bonds (famoso jogador de baseball), Bill Gates e George W. Bush as responderiam. Houve grande coincidência entre as respostas pessoais e as atribuídas a Deus, mas não aos três últimos. Ou seja, se você é a favor à pena de morte, para você, Deus também será. Em seguida, os pesquisadores induziram os participantes a mudarem seu juízo sobre o assunto, ao convidá-los a lerem um documento com argumentos e visões contrárias à sua. Os resultados revelaram que quando a opinião dos entrevistados se modificava, a “opinião de Deus” tem também mudava, embora a atribuída às outras personalidades não.

Agora retire a “pena de morte” do início do texto e coloque outras palavras e temas. Aborto, homossexualismo, legalização da maconha. Foi o que fizeram os pesquisadores, obtendo resultados análogos. Ao submeterem os participantes a estudos de neuroimagem identificaram que quando se pensa em qual seria a opinião de Deus, é usada a mesma área do cérebro para o pensamento autorreferencial, ao contrário de quando se pensa em qual seria a opinião de outras pessoas sobre o mesmo assunto. Não suportamos a consciência de agir de maneira desvirtuosa, e o fato de a pessoa recriar o seu Deus à sua imagem e semelhança revela altas doses de auto-engano – o processo mental involuntário de criar ideias que assumem veracidade para quem as criou, mesmo que tenham sido tidas como falsas pela mesma pessoa noutro momento. Isto acontece em inúmeras situações. Tendemos a nos ver, física e psicologicamente, de maneira melhor do que realmente somos. É como se tivéssemos um photoshop natural no nosso cérebro quando nos olhamos no espelho, física e metaforicamente.

Vejamos o que isto teria a ver com a educação. Alguém já viu algum prefeito  emitir alguma nota declarando incompetência em gerir as receitas públicas pelo fato de não conseguir contratar novos professores ? Acaso algum sindicalista enviou alguma carta à população falando a respeito da falta de compromisso dos professores com o pagamento de greve? Diretores escolares já pediram remanejamento de função se declarando incapazes de realizar sua função com qualidade?… Gestores diminuem sua culpa atacando a gestão passada. Diretores de escolas colocam a culpa na secretaria da educação ou nos professores. Sindicalistas prometem greves para o ano seguinte. Professores dão aulas sem planejamento, chegando à escola sem saber nem em qual turma trabalharão no dia. Pais – como nos lembra o Prof. José Pacheco -, que vão ao bar, estádio de futebol, à casa da amiga, mas não têm tempo de ir à esporádica reunião de pais e mestres da escola. Escritores que falam sobre educação como se tivessem a solução de todos os problemas sem nunca terem feito na prática o que tanto falam…

Todos pensamos que fazemos a nossa parte, sempre temos um olhar mais crítico em relação aos comportamentos dos outros, ou até mesmo transferimos-lhes a culpa dos nossos fracassos. O auto-engano é um importante mecanismo psicológico que funciona como uma defesa frente a ameaças as quais não conseguimos lidar, e está presente em todos nós, sem exceção. Sabendo disso, não podemos nos deixar levar pelo discurso do “é assim mesmo…”. Não podemos nos deixar levar pela cultura da mediocridade reinante na maior parte do nosso sistema educacional.

Não seria mau uma autocrítica severa a respeito das nossas atitudes, assim como ao sujeito viciado declara-se que deve primeiro reconhecer o seu vício, para depois buscar a solução do seu problema.

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