Quase 14 milhões de analfabetos

Por Cláudia Santa Rosa

Há pouco menos de um mês escrevi sobre “Educação e Desenvolvimento”, artigo publicado na revista “Ideias e Negócios”. O conteúdo continua atualíssimo, mesmo com a divulgação, pelo IBGE, do Censo 2010, revelando um cenário nada propício para comemorações: o Brasil tem quase 14 milhões de analfabetos com 15 anos ou mais, o equivalente a 9,6% da população. As diferenças regionais permanecem: no Nordeste 19,1% da população é analfabeta, no Norte cai para 11,2%, Centro-Oeste 7,2%, Sudeste 5,5% e Sul 5,1%. O Nordeste concentra expressivos 53,3% dos analfabetos do país, mais da metade, percentual maior do que os 51,4% apurados no Censo do ano 2000. No Rio Grande do Norte a situação não é diferente: o analfabetismo atinge 17,3% da população, quarto pior desempenho entre os estados brasileiros.

Reitero algo que não é novidade: o Brasil avançou nos investimentos em Educação, ampliou o acesso à escola básica, mas não conseguiu garantir a qualidade do ensino. Por isso mesmo, alimenta, com bastante eficiência, uma espécie de “fábrica de analfabetos”. A partir do próximo parágrafo reproduzirei parte do artigo supracitado, pela pertinência para a reflexão que ora pretendemos provocar junto ao leitor. 

Esses dados [Analfabetismo – Censo 2010] expõem, tão somente, uma parte da enorme dívida do país junto à sua população. Na verdade, o problema educacional agiganta-se quando analisados os dados da última edição do Indicador de Alfabetismo Nacional (INAF), do Instituto Paulo Montenegro, instituição vinculada ao IBOPE. O INAF define quatro níveis de alfabetismo: analfabetismo, alfabetismo rudimentar, alfabetismo básico e alfabetismo pleno. Neste quarto nível a pessoa lê, compreende e interpreta textos longos, compara informação contida em diferentes textos, estabelece relações entre as informações, distingue fato de opinião, realiza inferências e sínteses. Consegue, ainda, resolver problemas matemáticos que envolvem sequências de operações, por exemplo, cálculo de proporção ou percentual de desconto e interpreta informação oferecida em gráficos, tabelas e mapas.

O estudo revela que apenas 25% dos brasileiros são plenamente alfabetizados, ou seja, um entre quatro. Destaca, ainda, a ineficiência das nossas escolas e instituições de ensino superior, diante das seguintes estatísticas: ao final do 5º ano do ensino fundamental, minguados 6% dos alunos atingem nível pleno de alfabetização, 15% no 9º ano, 38% no ensino médio e 68% no ensino superior. Este último dado é estarrecedor e evidencia que, ao contrário do esperado, pelo menos 32% dos que concluem o ensino superior ingressam no mercado de trabalho sem que estejam completamente alfabetizados.

Diante do baixo desempenho acadêmico da maioria da população brasileira e das exíguas políticas públicas que oportunizam crescimento pessoal e profissional, não é de causar espanto o cenário de desigualdade social e dependência dos mais empobrecidos às ações do Estado. Nessa realidade estão ancoradas as promessas de ampliação, por exemplo, do ‘Bolsa Família’, programa de transferência de renda e principal política social compensatória implementada pelo Governo Federal. Convém indagarmos: se é verdade que a Educação carrega um forte potencial transformador, o que temos feito para superar indicadores tão desfavoráveis? É possível um país se sustentar num patamar de crescente desenvolvimento sem educar e formar bem a sua população?

 Insistiremos sempre: o problema maior localiza-se na base. É preciso cuidar bem da Educação de base, garantindo a universalização do acesso de todas as crianças à educação infantil, oferecendo-lhes um projeto pedagógico capaz de encaminhá-las no processo de alfabetização e letramento. Oportuno, também, definir o quadro de docentes em atividades nos três primeiros anos do ensino fundamental, tornando-os especialistas para atuarem nessa etapa e, assim sendo, evitar a rotatividade que mina a possibilidade de sedimentar equipes nas escolas. Saber dar aulas e saber alfabetizar crianças são competências diferentes, mas no Brasil são tratadas como se fosse a mesma coisa. Os resultados dessa confusão estão aí, já sabemos quais são.

Além disso, investir no projeto pedagógico da escola, na qualidade da gestão, nas equipes e na valorização dos profissionais é igualmente relevante, tanto quanto melhorar a infraestrutura das escolas e a tecnologia, além de cobrar a co-responsabilização das famílias. Não se admite mais uma escola alheia ao seu entorno e reduzida ao trabalho das salas de aula, por vezes sombrias e pouco atrativas. Espera-se que exista nas escolas o mínimo indispensável: biblioteca, laboratório de ciências, computadores com acesso à internet, oficinas de artes, quadra de esportes, funcionando com o máximo de vigor, sem que sejam tomados como mais ou menos importantes do que as salas de aula. Gestões públicas e escolares que limitem as oportunidades de aprendizagem e a formação integral de seus alunos, dificilmente terão como oferecer uma Educação capaz de contribuir para a emancipação das pessoas e, consequentemente, para o pleno desenvolvimento do país.

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