Palestrando

Por José Pacheco

Perante a consensual descoberta da falência do modelo epistemológico baseado na pretensa transmissão de saberes, o modelo organizacional que o sustenta mantém-se hegemônico e inquestionável. Talvez essa crença da transferibilidade linear de saberes se mantenha porque as instituições de formação de professores tenham esquecido que o modo como o professor aprende é o modo como o professor ensina. Que um curso ou palestra sobre autonomia, convivência e participação é, quase sempre, a negação do que pretendem transmitir, por se basear numa relação vertical geradora de dependência no objeto-ouvinte.

Se perfilharmos o princípio do isomorfismo, a formação de professores deverá adotar processos idênticos aos das práticas que visa suscitar no quotidiano das escolas. Os processos de aprendizagem não deverão estar centrados no professor nem no aluno, pois tudo passa pela relação. Nesse sentido, o educador deverá saber gerir a imprevisibilidade da relação, por ser impossível prever a multiplicidade e a variedade de situações com que pode deparar. Reconhecerá que, assim como formação não rima com solidão, autonomia não rima com hierarquia. Que, assim como se aprende a ler, lendo e se aprende a fazer, fazendo, também nos auto-formamos com os outros. E que é a autoria que confere dignidade ao ato educativo.

Há mais de três décadas, compreendi que não deveria continuar a reproduzir o modo como me adestravam em cursos e palestras. O modelo transmissivo de palestra e de aula, que ignora a possibilidade de produção de conhecimento a partir da interrogação e do diálogo, produz condicionantes sócio-culturais, que impedem a plena realização do ser humano. Num tempo em que não havia computadores, assistia à projeção de transparências com súmulas de teorias e propostas de práticas. Nenhuma delas se encaixava no hic et nunc da minha prática, talvez porque nenhum dos palestrantes tivesse posto em prática as teorias e práticas que recomendavam… E o que diziam aquelas sábias criaturas? Nas suas preleções, exortavam ao uso de uma técnica, ou falavam daquilo que tinham lido em livros, que eu poderia ler, sem necessidade de perder tempo a ouvi-los.

Sem pretensão de originalidade, mas por convicção, no início das minhas conversas com professores, exponho a lista de livros que publiquei. Perante perguntas cuja resposta conste de um desses livros, remeto para a sua leitura. Não faz sentido que eu desperdice tempo a papaguear aquilo que escrevi num livro. Se o escrevi, foi para me dispensar de repetir respostas, foi para que alguém o lesse.

Ainda hoje vemos formadores e palestrantes estabelecerem a seqüência e o ritmo da aula ou preleção, numa atitude de que não tomam consciência e cujas conseqüências – quero crer – ignoram totalmente. Recorrem à apresentação de slides e vídeos, quando poderiam constituir-se em mediadores entre o saber constituído e o domínio das preocupações daqueles que com eles interagem.

Recebi convite para realizar uma palestra, acompanhado do pedido do “texto da comunicação”. Respondi que aceitaria o convite, mas que não poderia enviar o “texto da comunicação”. Expliquei que pratico o diálogo entre aprendizes. Que somente após escutar as perguntas eu poderia ensaiar as respostas, que não poderia adivinhá-las. A resposta voltou definitiva: “todos os palestrantes enviaram as comunicações. Por isso…”. Compreendi que não poderia constituir exceção e enviei a derradeira mensagem: “junto envio um texto; se houver alguém que o leia, evitarei o desgaste da viagem e vós evitareis o gasto”.

Não obtive retorno.

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