O mundo de Salizete Freire

Por Cláudia Santa Rosa

Sábado, 28 de março, fiz uma saudação à excelente autora potiguar Salizete Freire Soares, por ocasião do lançamento do seu “Mundo pra que te quero”, uma beleza de livro. Passo a transcrever as singelas palavras proferidas naquela oportunidade:

Ai se eu soubesse escrever ou falar bonito! Iria contar para vocês sobre a emoção desse momento. Contento-me em dizer o quanto me considero uma felizarda, pois não é de hoje que aprecio a obra desta mulher autêntica e sensível no respeito às suas raízes interioranas; mãe; educadora; ativista em prol da causa da formação de leitores; talentosa contadora de histórias; autora de textos extraordinários, marcados pela beleza da prosa poética e a forte identificação com a metáfora do “tempo”. Guardo com carinho “Bicho pra que te quero”, autografado em 1995 com as seguintes palavras: “Cláudia Santa Rosa, ler é fugir do sofrimento!” De fato, diante de um texto de Salizete nos emocionamos, impossível sofrer.

Cada texto, cada poema, cada livro são verdadeiros presentes de Salizete para as crianças e também para os adultos que amam a literatura. Enquanto sua aluna, no Instituto de Formação de Professores Presidente Kennedy, me recordo da “Aula da Saudade” da turma de 1995, quando Salizete “pintou o sete”, diante de uma platéia extasiada, com um texto muito bem construído em que lembrou, entre outros, que sete são os dias da semana, sete é o número de vidas de um gato, que há Caboclo Sete Flechas e que o Faraó sonhou com sete vacas magras e sete vacas gordas, sete espigas cheias e sete espigas secas… por fim, que sete é a quantidade de letras da palavra SAUDADE. Naquele momento percebi que ela não passaria anônima no mundo da literatura. Eu estava certa! Salizete tem marcado o seu lugar no tempo, no catálogo dos grandes autores e nas memórias das crianças que se deliciam com os seus livros.

A partir de 2009, que felicidade! A cada ano a autora tem nos dado um presente. Com um frescor inigualável revela originalidade, nos faz pensar sobre o tempo e voltar no tempo; nos faz pensar sobre mutações e transformações naturais, em textos gestados com delicadeza, zelo e amor às palavras.

O livro “Mundo pra que te quero”, cuidadosamente editado pela Paulinas, chega como uma obra indispensável nas estantes das bibliotecas escolares, públicas, comunitárias e pessoais. Não bastasse o texto de Salizete, a arte magistral de André Neves empresta beleza e conteúdo em ilustrações de traços únicos.

A obra trata do mundo de interrogações e descobertas de uma menina que tenta dominar o tempo, mas que se dá conta que a natureza vira a cada instante, que o tempo gera mudanças. A menina percebe que há coisas que o Homem pode fazer virar outras coisas. A menina descobre, a menina sabe das coisas…

Salizete Freire Soares sabe que a sua prosa poética pode virar seiva no processo de formação de leitores desde a infância. Eu tenho certeza que pode. Obrigada, querida amiga. Parabéns por mais este filhote! Assim, finalizei minha fala.

  Fosse eu dizer um pouco mais, perguntaria à “fantasiosa, insistente menina” se o mundo é capaz de responder em que tempo os homens entenderão que os livros devem fazer parte da vida das pessoas, independentemente de extrato social, desde a mais tenra idade. Quem sabe a menina soubesse responder as razões da maioria dos governos subtrair o direito da população em contar com bibliotecas nas escolas, dotadas de acervos atualizados e professores qualificados, para aproximarem o usuário dos livros e, portanto, da leitura. Diria eu, à personagem de Salizete Freire, que o mesmo descuido ocorre em relação às bibliotecas públicas, cada vez mais escassas, distantes da periferia das cidades, mal cuidadas, improvisadas, precárias, longe de cumprirem a função a qual se propõem.

Fico a me questionar se menina saberia responder em qual tempo os filhos da maioria terá direito a escola que desejamos para os nossos filhos, netos, sobrinhos… Uma escola com biblioteca cheinha de livros, ótimos professores, salas de aula bem arejadas, computadores com acesso à internet. Será que o mundo responderia à menina?

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