O Atheneu como referência

Por Eugênio Parcelle

Nas últimas duas vezes em que o mestre Paulo Freire esteve no Rio Grande do Norte, fazendo palestras no auditório da ETFRN (atual IFRN), em ambos os momentos repetiu o mesmo pedido para uma platéia lotada de educadores: resgatem o Atheneu. A frase ficou na minha memória, assim como o olhar do educador para o mar de Areia Preta,enquanto deliciava uma cachacinha antes do almoço.  Agora, às vésperas de mais uma eleição, no meio da realização do encontro da SBPC em Natal, relembro o pedido do maior educador do Brasil.

Em outro momento, numa conversa com o promotor de educação do Ministério Público do Estado, Raimundo Silvio, perguntei qual escola pública ele destacaria como referência. Profissional comprometido com a melhoria da qualidade do ensino, fiquei chocado quando me respondeu que, à exceção do IFRN, não conhecia um estabelecimento de ensino público no Estado com padrões de eficiência e eficácia comprovados, o que só vem a corroborar o que as pesquisas apontam para o ensino potiguar.

É fato, a educação pública no Rio Grande do Norte é uma vergonha, e nem a propaganda oficial consegue maquiar os indicadores, pois todos os pais e estudantes estão vivenciando e vendo o quadro negro do ensino. E aí precisamos construir uma ponte entre o discurso de Paulo Freire e de Raimundo Silvio. Precisamos de referências na educação pública do Estado, instituições que possamos mostrar com orgulho, como um exemplo para as demais do que pode ser feito. O Atheneu, até por sua grande história, reúne as condições necessárias para este papel.

E aí vem uma primeira provocação: onde estão os seus ex-alunos, que hoje ocupam valorosos cargos no Governo ou em instituições privadas, e tiveram seus alicerces intelectuais levantados em boa parte no Atheneu, com professores como Câmara Cascudo? Será que não poderiam dar uma contribuição para o soerguimento dessa escola, nem que seja uma palavra só, mostrando o que foi o Atheneu para as novas gerações, que só contam com notícias ruins como jovens envolvidos com drogas ou participando de conflitos entre gangues.

Sempre estudei em escola pública, onde conquistei as bases do meu conhecimento com professores comprometidos e outros nem tanto. Não fui aluno do Atheneu, mas reconheço sua força e fico chocado quando passo em frente a sua fachada e vejo centenas de adolescentes e jovens sentados, sem fazer nada, em decorrência da falta de professores, quando poderiam aproveitar o tempo livre para produzir jornais escolares, experienciar a formatação de vídeos, fazer sites, compor poesias e músicas, formar bandas, treinar modalidades esportivas, plantar rosas, construir o futuro, enfim. Além do aprendizado nas diversas disciplinas, ações extracurriculares contribuem, e muito, para o desenvolvimento humano. A estrutura física existe e está aí. Há uma equipe qualificada de profissionais da educação e centenas e centenas de alunos ansiosos para fazer o conhecimento fluir – conhecimento enquanto troca. Quem quer se comprometer?

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